Você acha que a Medicina piorou?

Talvez você já tenha ouvido alguém dizer: “Antigamente, eu ia ao médico e ele resolvia tudo.”
O médico examinava, escutava, explicava. Pedia poucos exames, mas parecia enxergar o paciente inteiro. Havia tempo, havia vínculo, havia raciocínio clínico. E, acima de tudo, havia confiança.

Hoje, muita gente tem a sensação de que isso se perdeu. E talvez não seja apenas uma sensação. A Medicina mudou muito. Mudou para melhor em diversos aspectos. Temos exames mais precisos, cirurgias mais seguras, tratamentos mais modernos, acesso mais rápido à informação e tecnologias que seriam impensáveis algumas décadas atrás.

Mas existe um ponto que precisa ser dito com clareza: a formação médica no Brasil sofreu uma expansão grande e, em muitos lugares, desordenada. Nos últimos anos, abriram-se muitas escolas médicas. Formam-se dezenas de milhares de médicos todos os anos. O número impressiona. Mas a pergunta principal não é apenas quantos médicos estão sendo formados.

A pergunta mais importante é: quem está formando esses médicos? Porque Medicina não se aprende apenas em livros, slides ou vídeos. Medicina se aprende com bons professores, bons hospitais, bons ambulatórios, bons centros cirúrgicos, bons exemplos e, principalmente, com tempo de prática supervisionada.

Eu me lembro bem da minha época de faculdade. Estudei na Universidade Federal de Santa Catarina. Quando olhava para meus professores, via mestres, doutores, pesquisadores e especialistas. Mas via algo ainda mais importante: experiência. E experiência, em Medicina, significa muito.

Se você fosse fazer uma longa viagem de carro, em uma estrada difícil, sem conhecer os motoristas, com quem preferiria ir? Com alguém que acabou de tirar a habilitação ou com alguém que dirige há anos, conhece a estrada, já enfrentou chuva, neblina, curvas perigosas e sabe o que fazer quando algo sai do previsto?

Na Medicina, a lógica é parecida. Título acadêmico importa. Formação importa. Residência médica importa. Atualização científica importa. Mas a vivência prática também importa muito. O contato diário com pacientes, consultórios, hospitais, centros cirúrgicos, laboratórios, exames, complicações, decisões difíceis e casos reais constrói um tipo de conhecimento que nenhum atalho substitui.

É claro que ainda existem excelentes faculdades. Ainda existem ótimos professores. Ainda existem alunos brilhantes, médicos dedicados e serviços sérios de formação. A boa Medicina continua existindo. O problema é que ela está cada vez mais misturada em uma massa enorme de formações apressadas, estruturas insuficientes, professores pouco experientes e instituições que nem sempre tratam a formação médica com a responsabilidade que ela exige.

Isso não acontece apenas na Medicina. Acontece em diversas áreas. Quando se aumenta muito a quantidade sem o mesmo cuidado com a qualidade, o resultado aparece. Aparece no atendimento. Aparece na escuta. Aparece na insegurança. Aparece na dependência excessiva de exames. Aparece na dificuldade de conduzir o paciente com clareza.

E, hoje, existe outro componente: as redes sociais. As redes deram voz a todos. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque há profissionais sérios compartilhando informação de qualidade. Ruim porque também há muito conteúdo superficial, muita promessa fácil, muito marketing bonito e pouca consistência por trás.

Por isso, o paciente precisa aprender a escolher. Antes de confiar sua saúde a alguém, observe. Pesquise. Questione. Veja a formação do profissional. Veja se ele tem registro ativo no CRM. Veja se possui especialidade registrada. Busque saber onde se formou, onde se especializou, qual é sua experiência e como conduz seus pacientes.

O Conselho Federal de Medicina e os Conselhos Regionais de Medicina existem justamente para regulamentar e fiscalizar o exercício profissional. No site do CFM, é possível consultar informações sobre médicos registrados no Brasil, incluindo situação cadastral e especialidades reconhecidas.

Isso é importante. A Medicina evoluiu. E continuará evoluindo. Mas evolução tecnológica não substitui formação sólida. Informação abundante não substitui julgamento clínico. Redes sociais não substituem experiência. E diploma, sozinho, não garante excelência. Bons médicos ainda existem. Boa formação médica ainda existe. Professores sérios ainda existem. Serviços comprometidos ainda existem. Mas, hoje, talvez seja necessário procurar melhor.

Não basta reclamar que a Medicina mudou. É preciso assumir um papel mais ativo nas próprias escolhas. Perguntar, pesquisar, observar com atenção. Entender quem está do outro lado, como pensa, como conduz, como decide.

Quando o assunto é saúde, não existe atalho seguro. Existe atenção, responsabilidade e decisão consciente. Porque, no fim das contas, antes de entrar no carro, você não gostaria de saber quem está dirigindo?

Na Medicina, essa pergunta também é relevante.

Dra Karine Perin Fernandes
Cirurgia Geral e Cancerologia Cirúrgica
CRM/SC 13874 | RQE 12464

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